quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Poexos


pornortografia

poemásculos
feminílicos
poeminos
machocados
femilíricas
machopéias
masculares
feminondas
poemeus
nos poeteus 
machoetas
nas poêmeas



escrevia

por ti eu escrevi todos os dias
desenhando cada letra com amor
teu corpo era um caderno fechado
que eu abria e rabiscava lentamente
até arrepiar os pêlos das frases 
até ouvir tu pedir que rasurasse
com uma urgência quase criminosa
as folhas virgens que não mais existiam



desata-me

tuas costas descendo
davam nuns morros
lindos de escalar

as longas estradas
das tuas coxas
davam falta de ar

os teus olhos eram
duas luas negras
numa manhã de maio

tua nuca nua
exalava fuligens
vulcânicas

e teus seios 
endureciam em minhas 
mãos atadas



amor

sentíamos que a validade do amor
era indeterminada
um estoque infinito de abraços e beijos
tomava conta da casa inteira
quarto sala cozinha banheiro corredor
e amávamos e amávamos e amávamos

mas um dia sem explicação alguma
(impossível encontrar uma na despensa)
o amor começou a sumir da casa
(deixou rastros mas nenhum bilhete)
foi nos deixando
vazios pela sala 
sozinhos no banheiro
com olhares tristes
(olhares tristes emolduram-se para sempre)

quanto mais tentávamos reencher
os vasilhames dos corações 
com algo que não mais existia
(uma mímica incompreensível)
mais desamávamos e desamávamos
dois corpos sobre a cama
gozada



sem nada

sem nenhuma poesia ela me dizia 
pra que isso?
se os cem sonetos de amor de neruda
já seduziram e vestiram minhas fantasias
e os homens despiram minhas ilusões

e rrrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaa 

sem nenhuma poesia ela repetia
o melhor amor se faz sem nada
como mendigos
no colchão da madrugada



sequestros

no tocante a ti
quando acabou
terminantemente
depois tu veio
e falou

- o fim só não
virou recomeço
quando acertaste
meu rim

engraçado
nos conhecemos
tratando do fígado

lembras?
extraterrestres invadiram a clínica
queriam te raptar
- fui salvar a guriazinha



orla

pinheiros publicitários partilhados
na cobiça da orla
os salva-vidas passeiam marenhos
olho no tédio assassino das ondas

no lençol da sua órbita
ela exorbita



mar 

é



cactus

tua ausência faz tanta falta
quanto água no deserto
mas tem tanto refil por perto

refis alimentam meu corpo
mas não há preenchimento
para um cactus vazio 



pegada

teus seios mornos
sei-os de cor e salpicados
tuas bocas abertas
entro como dono
tua pose entregue
é uma ordem
tomo posse
mãos ao alto
isto é uma lânguida curra



costura

as mulheres só vão embora
quando têm certeza de que vamos lembrá-las
muito além do corte e costura de um texto 



ar

ela gostava de ficar quase a morrer
de falta de ar
e a gritar e a bater e a desejar
tu vai me matar



mil novecentos e tal

perseguir os olhos agudos do carteiro
indo nem lerdo nem ligeiro
entregar-me-te em mãos
num outro século



linhas

os olhos negros dessa mulher
quando miram quem
e o que
exatamente
ela quer



dedos

dedos abrindo a mata cerrada de cabelos
dedos arrepiando teus pêlos
dédalos de dedos e cabelos se engalfinhando
o registro digital na filigrana dos fios
dedos denunciando a nuca sob os cabelos
cabelos ao meio das costas
naquele ponto exato em que feito mãos
dedos não envolvem apenas melenas
mas a helenice dos seios



olhares

você é toda par de olhos
veio daquele jeito 
de quem diz ao que veio
e soletrou tu tá triste
amarrotado e feio

me fez até vomitar o belo jantar
saí dali que nem caim
mas que lugar me esconde de mim?



poxa

tuas coxas merecem poxas
porra são tão duas
sevindo geografia e pastagem
escondem vales cachoeiras
sete quedas de ânsias
tuas coxas me engolem
fazem por merecer meu pólen



caroço

o zoológico é uma biblioteca 
a biblioteca é alojamento de fantasmas
os fantasmas são atores de cinema
o cinema é prestidigitação

a ilusão é real
o real é invisível
ao olho
cru

a lua nova é um pedaço de unha
unha é proteína pura
pureza é nome de margarina
- já assistiu ao último tango em paris?

a paisagem é ilusão de ótica
ótica é um ponto de vista cego
cegos veem por tato e cheiro
você tem casca
bagaço
mucosa de manga
tudo bom de comer

a gente é bicho



esfinge

numa perspectiva egípcia
há uma gata siamesa
deitada num tapete persa

ou uma cobra se arrastando
pela beira do nilo



energia vital

sumiste
numa nota
um dó

despareceste
deixaste
o pano cair

sorriste
meio triste
e meio

partiste
num bonde
pra onde

te foste
nunca com tanta
energia eólica



amém

queria fazer um poema 
pornoescatológico
que terminasse num amém

depois iria me confessar ao padre
só pra ouvir um porém
dos infernos



tereza

a única mulher que me comoveu
foi madre tereza de calcutá
as outras ou são madres
ou são só terezas
ou alto lá



de viver

e viver é sofrer
e sofrer é gozar
e gozar é morrer
um pouquinho

morrendo
gozando
sofrendo
vivemos

o que ainda é só



vira

teu lado blue jeans comestível
é o melhor
o pior vamos combinar
é melhor ignorar
quero ver o lado bom da coisa
vamo vira
doce
ácido
leite condensado por cima



tatu

tá tu com falta de eu
que me precisa
a tua mão alisa a perna
e olha bem meu bem
a perna é minha
e quando tá tu assim
ai de mim ai de mim
tá tu bem tu 
cheia de esses e xises
tuas mãos suam
os olhos comeram luas
a voz ruge e arranha
o peito é um vulcão
tuas cadeiras rodopiam
teu ventre flamba
tuas pernas bambas
tua boca louca
tá tu com falta de eu 
tô dentro



pra ti

meu sentimento corcunda
circunda a ausência do teu corpo
gotejo te escrevendo
te esculpo imaginando
te mastigo lanchando



errata errática

quando saio de casa
sei se estou do lado avesso ou não
e invisível
até encontrar você despida de pudores

quando acordo querendo morrer
esqueço ao te ver morta viva
do meu lado

quando chega esta noite
que desaba sobre mim
tu surges no céu
estrela vadia
piscando sem vergonha



a outra

a mulher só perde a virgindade 
ao assumir que tem outra por dentro
e suplicar castigo por sua inocência



undelivered

mandei um milhão de e-mails pra ti
eles voltaram dizendo
undelivered mail returned to sender
undelivered mail returned to sender
undelivered mail returned to sender
undelivered mail returned to sender

que falta de educação
tua caixa de entrada é tão fria
quanto o teu fígado ou o teu rim



censura

a melhor bebida vem da uva
o melhor beijo vem da boca
mas tem umas frutas e lábios
impróprios para abstêmios



u

enfiei o i no teu u
tu soltaste um ai
mesmo assim sussurraste
vai



ascunho

dei a ela um livro de páginas em branco
em retribuição ela escreveu uma história
em que sou um voyeur cego
assistindo a um filme com sintaxe pornô



m&m

quanto mais tu lê
martha medeiros
mais tenho vontade
de te comer

martha medeiros
não é afrodisíaca
é só um m&m
da literatura

mas tu te gosta toda
nas frases dela
e eu me acabo
comendo as duas



haicais

entre o mar e o rochedo
fico com o musgo
do teu brinquedo

de alma estropiada
tu não titubeaste
te enfiaste



a teus pés

que sina
me espreitando na esquina
aceso
faiscando
vidrado
o olhar de cristina
tá fissurado

abro o olho
não adianta
ana cristina césar
repousa sua deprê
no bidê 

nós três assim
vai dar em poema
petit comité



paz é amor

debate é flerte
polêmica é o bom e velho sexo
guerra é sexo dos impotentes:

querem impor o poder imperial 
de suas próteses penianas

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